"Eu nem conhecia, mas estou sofrendo": por que a morte de uma pessoa pública pode provocar luto?
Psicóloga especialista em luto, Wlliane Flores Moreira explica como vínculos construídos pelas redes sociais podem fazer com que a morte de alguém que nunca encontramos pessoalmente seja sentida como uma perda
A morte do influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, aos 59 anos, na última quinta-feira (1º), provocou uma onda de homenagens nas redes sociais. Ao longo dos anos, Lito construiu uma comunidade de milhões de seguidores, que acompanhavam seus conteúdos sobre aviação e, mais recentemente, também parte de sua trajetória durante o enfrentamento de uma doença rara. Para muitas dessas pessoas, a notícia trouxe uma reação que pode parecer difícil de explicar: tristeza, choro, sensação de vazio e até vontade de rever vídeos antigos de alguém que, na realidade, nunca conheceram pessoalmente.
Mas é possível viver o luto pela morte de uma pessoa com quem nunca tivemos uma relação presencial? Segundo Wlliane Flores Moreira, psicóloga especialista em luto, sim. "O vínculo não depende necessariamente da convivência física para existir. Quando acompanhamos alguém durante anos, ouvimos sua voz, conhecemos seus pensamentos, esperamos pelos seus conteúdos e incorporamos aquela presença à nossa rotina, aquela pessoa passa a ocupar um espaço na nossa vida. A morte interrompe essa presença e pode provocar uma reação genuína de perda", explica.
As redes sociais mudaram a maneira como nos relacionamos com pessoas que não fazem parte do nosso círculo íntimo. Um influenciador pode estar presente diariamente na rotina de alguém por meio de vídeos, podcasts, stories e publicações. Com o tempo, essa presença pode se tornar familiar. "Não é necessário que exista intimidade nos moldes tradicionais para que alguém tenha significado emocional para nós. Uma pessoa pode nunca ter sabido que determinado seguidor existia e, ainda assim, ter ocupado um espaço importante na vida dele", afirma Wlliane.
É por isso que a frase "eu nem conhecia, mas estou sofrendo" não deve ser entendida como exagero. A intensidade da reação pode estar relacionada não apenas à pessoa que morreu, mas também ao que ela representava para quem a acompanhava: uma fase da vida, um interesse, uma identificação, uma fonte de informação, uma companhia cotidiana ou até uma lembrança afetiva. A morte de uma personalidade pública pode, ainda, despertar sentimentos relacionados a outras perdas. "Às vezes, a morte de alguém que acompanhávamos pelas redes toca em uma perda que já vivemos ou em um medo que carregamos. Aquela pessoa pode ser o ponto de contato com sentimentos que já estavam dentro de nós", explica a psicóloga.
Há ainda uma particularidade no luto por pessoas públicas: a despedida acontece em um ambiente coletivo e, muitas vezes, diante de milhares ou milhões de pessoas. Poucas horas depois da notícia, redes sociais são tomadas por fotografias, vídeos antigos, mensagens de fãs e homenagens. No caso de Lito, foi justamente nesse ambiente que ele construiu durante anos sua relação com o público. Para Wlliane, compartilhar a dor pode ser uma forma de encontrar acolhimento, mas também exige atenção à maneira como cada pessoa está vivenciando aquele momento. "Encontrar outras pessoas que também estão sentindo aquela perda pode trazer acolhimento e a sensação de pertencimento. Ao mesmo tempo, a exposição constante a imagens, vídeos e notícias pode fazer com que a pessoa permaneça em contato com a perda de maneira muito intensa. É importante perceber o que ajuda a elaborar aquele sentimento e o que começa a pesar", orienta.
Não existe, portanto, uma medida objetiva para definir se alguém deveria ou não estar sofrendo pela morte de uma pessoa que não conheceu pessoalmente. O luto não é determinado apenas pelo grau de intimidade, mas pelo significado que aquela relação tinha para quem ficou. "O sofrimento não precisa ser validado pelo grau de proximidade que existia entre as pessoas. Se alguém fazia parte da nossa história de alguma maneira, a emoção diante da sua morte merece ser reconhecida. Não precisamos justificar para os outros o tamanho daquilo que sentimos", finaliza Wlliane.
Sobre Wlliane Flores Moreira
Wlliane Flores Moreira é psicóloga oncologista e paliativista (CRP 19/4611), com mais de oito anos de experiência no cuidado emocional de pessoas com câncer e suas famílias. É especialista em Oncologia Multiprofissional pelo Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e em Psicologia Hospitalar, título concedido pelo Conselho Federal de Psicologia. Atualmente, cursa especialização em Cuidados Paliativos e Terapia da Dor pela PUC Minas.
Atua no Centro de Infusão e Oncologia da Unimed Sergipe e também atende on-line em consultório particular. Foi coordenadora de saúde mental na atenção primária, participou como voluntária do Projeto Brincante, da UFRJ, e liderou iniciativas relacionadas à saúde mental, psico-oncologia e cuidados paliativos. Entre elas estão a implantação dos serviços de Psico-Oncologia e Cuidados Paliativos da Unimed Sergipe, o Projeto Cuidar, com encontros abertos ao público sobre oncologia, e o I Simpósio de Cuidados Paliativos da instituição.
Em suas redes, no perfil @psi.wlliane, aproxima pacientes, famílias e profissionais de temas como câncer, luto, cuidados paliativos e humanização em saúde.

Comentários