quinta-feira, 7 de maio de 2009

A (sa) fada dos dentes...uiiiiii!!!


Ri tanto com este texto do Diego Gianni que resolvi dividir....

A (sa)fada dos dentes

É o seguinte: ás vezes você abusa do chocolate, relaxa na escovação e eis que brota uma singela cárie num dos dentes. E se você relaxa mais ainda - beirando a vagabundagem - e vai deixando “o tempo correr”, a cárie que começou tão pequenina vira um canal.
É o que aconteceu com este animal que vos fala. Eu, como toda pessoa normal, odeio dentistas do fundo do meu coração (lembrando que relativamente falando, um tratamento de canal dói mais do que uma cirurgia no coração, já que quanto te metem um marca passo pela goela você tem o consolo de estar dormindo).
E lá estou eu, entrando no consultório da dentista como um boi sôfrego que está prestes a receber uma vacinada letal no meio da testa.
- Tenho hora marcada.
- Nome? – me pergunta a recepcionista.
- Diego.
- Sobrenome?
- Isso importa?
Eu sei, fui grosso. Mas relevem, eu estava nervoso. Entrei na salinha onde dentro de alguns minutos seria torturado. A assistente da dentista me coloca uma touca ridícula na cabeça, um tipo de babador no meu peito e me avisa:
- A doutora falou que vai se atrasar um pouquinho. Não repara não, é que ela está com depressão.
Perfeito. Era tudo o que eu precisava ouvir. É a mesma coisa que você ir num urologista sabendo que ele tem o estranho cacoete de esmagar salsichas.
Cinco minutos se passam e o monstro chega. A dentista veste uma roupa impecavelmente branca e sorri pra mim. Eu não retribuo o sorriso, olho para ela desconfiado.
- Calor, né? – diz ela como convém a qualquer pessoa sem assunto.
- Isso importa? Olha aqui doutora, só me diz se este troço vai doer muito. Tipo assim, numa escala de zero a dez.
- Bom...
O celular do monstro toca. Ela atende sem pedir desculpas e berra para a pessoa do outro lado da linha: “eu não posso falar agora! Que droga, toda vez a mesma coisa!”.
Ela desliga e sorri novamente para mim. Estou morto, penso eu. Já começo a imaginar os comentários que as pessoas fariam no meu velório:
- Morreu do quê o infeliz?
- Canal.
- Eita! Nem Sabia que uma porra destas matava!
- Pra você ver. Mas parece que a dentista estava depressiva e teve um ataque de fúria no meio enquanto tava atendendo ele e sem querer acertou a jugular com a broca.
- Que “cousa”. Aposto que se ele tivesse sobrevivido teria escrito algum conto sobre isso.
- Ah é. Tinha esquecido que o animal sonhava em ser escritor.
- Pobre alma.
- Pobre alma.
Volto a si. A dentista pergunta se estou pronto pra começar.
- Vâmo logo com isso. – resmungo. – A gente começa a morrer no dia em que nasce mesmo.
A desgraçada me aparece com uma seringa dona de uma agulha do tamanho de um fêmur e me avisa:
- Primeiro eu vou dar a anestesia. É só uma picadinha. Vai doer um pouco.
- Quanto, numa escala de zero a dez?
A resposta é “onze”, é o que concluo quando a vaca me enfia a agulha no meio da gengiva.
- Me avisa quando o lábio começar a ficar amortecido.
- Mnnn. Mnnnnn.
- Acho que já ficou.
Então vem a broca. A maldita da broca. O barulho é o mesmo de uma furadeira e prometo a mim mesmo que nunca mais vou fazer um furo na parede sem antes anestesiar a coitada.
- AIIIIIIIII!
- Doeu?
- Não! Eu tenho a mania de gritar de repente! Assim, do nada!
A coisa toda leva uns quarenta minutos. Durante o martírio tento pensar em coisas boas, como por exemplo estar me afogando e não ter nenhuma broca me perfurando o dente.
- Prontinho. Viu só? Não doeu nadinha.
“Vaca filha da pota”, penso eu com ódio. Me preparo pra ir embora e ela diz:
- Amanhã as quatorze horas está bom pra você?
- Por que em nome de Deus eu voltaria aqui amanhã? – pergunto perplexo.
- Ué. Pra segunda parte do canal.
- O QUÊ?
- São três partezinhas e...
- Ô MINHA FILHA! NÃO SE FAZ ISSO COM UM CRISTÃO!
- Mas...
- CRUCIFICA DE UMA VEZ SÓ!
Não tenho outra escolha a não ser aceitar o fato de que no dia seguinte vou ter que ver aquela mal comida de novo.
Na hora de eu ir embora ainda me tentou ser simpática, a vaca:
- Até amanhã, querido.
Faltou “isso aqui” pra eu mandar ela pra “pota que a pariu”.
Paciência é uma virtude que não tenho.

Diego Gianni