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Um país de ...tolos?!


Essa matéria foi concedida pelo dramaturgo Diego Gianni...eu era uma das atrizes em cena....resolvi postar para mostrar como está o teatro hoje em dia na mente dos jovens(não generalizando,claro)
Hoje tive uma experiência traumatizante, do tipo que faz qualquer pessoa deitar-se num divã próximo a um busto de Freud e discursar suas lamúrias.Fui a uma peça de teatro.Explico. Duas da tarde. Trinta e cinco graus a sombra. Local da apresentação: uma escola. Uma platéia formada por adolescentes do ensino médio e fundamental. Estavam ali por livre e espontânea pressão. Preferiam mil vezes estar em algum shopping, cinema, ou de preferência, em casa dormindo. Ouvi até mesmo um deles comentar, carinhosamente, que preferia se jogar de um viaduto de cabeça do que perder uma hora de sua aparentemente agitada vida assistindo a uma peça de teatro.Bom, não tinha nenhum viaduto por perto, de forma que ele e os outros cento e quarenta e nove adolescentes tiveram de assistir, resignados, ao espetáculo. As portas se abriram. Eu já estava lá dentro, sentado numa cadeira mais ao canto. Queria observar bem a entrada deles. Você consegue saber exatamente como vai se comportar a platéia durante a peça só pela maneira deles entrarem e se acomodarem nas cadeiras. Entraram rindo, gritando, chutando, cuspindo e outras coisas que nem o mais grosseiro dos neanderthals faria. Passei a mão pela testa suada já sabendo o que vinha pela frente.E deu no que deu. Uma pequena parte dos alunos só estava ali para desrespeitar o trabalho da companhia teatral. Eles já entraram ali com este pensamento, e nada iria tirar esta sádica diversão deles, mesmo que a peça em si fosse uma mistura do auge do genialismo de Shakespeare com o profundo questionamento existencial de Sartre. O texto era meu, e na metade da apresentação, vi-me forçado a deixar a sala. Estava nervoso. É duro ver o trabalho de tantos envolvidos sendo desrespeitado de tal maneira. São meses de ensaios para um final nem sempre recompensador. Ainda lá fora, pensando sobre essas coisas, vi um aluno de ouvido colado a porta, tentando sem sucesso ouvir as falas dos atores. Perguntei a ele porque não quis assistir à peça, e ele argumentou que o preço era extremamente caro. “Custa apenas cinco reais”, disse eu. “Muito caro”, bateu ele na mesma tecla. Contei a ele, até mesmo para o encorajar a assistir uma próxima montagem no colégio, que em algumas peças o ingresso chega a custar mais de cem reais. Ele me olhou pensativo e concluiu: “bem, mas daí é teatro profissional”.Contando mentalmente até mil, tentando me lembrar que até mesmo neste país, onde réus primários tem carta de alforria, jogar um pré-adolescente num muro de concreto a mais de seis quilômetros por hora pode não ser visto com bons olhos. Colei eu o ouvido a porta. Voltaria lá dentro? Abri a porta discretamente para espiar se os ânimos lá dentro já haviam acalmado. Sonho meu. No exato momento em que coloquei o nariz para dentro da sala, ouvi uma das adolescentes dizer que a única coisa que poderia salvar a peça era uma das atrizes cair de cara no chão. Pensei em dizer alguma coisa, mas a perspectiva de uma nova guerra de bolinhas de papel entre eles me fez pensar duas vezes. Antes de sair da sala definitivamente, dei mais uma olhada para o diretor da peça. Parecia que ia ter um derrame a qualquer momento. Estava rouco de tanto mandar os alunos se calarem. Senti pena dele. A peça acabou e só restou a todos torcer para que a próxima platéia fosse mais convidativa.E ficou a pergunta: de quem era a culpa? Dos alunos? Dos professores? Da companhia? O que faz com que o teatro hoje seja tão desrespeitado? Este foi apenas um exemplo entre milhares. Conheço uma centena de atores, e a maioria deles não tem condições sequer de ter um carro. Eles, que se apresentam para médicos, advogados, banqueiros, governadores, prefeitos e até o papa. Não importa a classe social, dificilmente a pessoa que está na platéia (a não ser que também seja do meio artístico) tem noção do quanto é difícil dar vida a uma peça de teatro. Envolve sonhos. Envolve sacrifícios. O sacrifício da própria vida, por assim dizer. Grande parte dos que fazem teatro, o fazem por pura paixão. Pessoas assim mereciam uma aposentadoria confortável, e não terminar seus dias tomando um prato de sopa de pedra no retiro dos artistas, muito menos serem reconhecidos apenas quando já não estiverem entre nós. “O teatro é muito caro”. Será mesmo? As pessoas deixam de prestigiar o teatro por uma questão de dinheiro? Bobagem. É uma questão de cultura, simples assim. Os mesmos que alegam não ter dinheiro para ir ao teatro, vão a estádios de futebol, danceterias, boate, barzinhos com consumação mínima de 15 reais, shows, tudo muito mais caro do que o teatro. É verdade sim que existem peças onde o ingresso passa de cem reais, ficando assim muito distante a possibilidade do seu José e da dona Maria assistirem ao espetáculo. Mas há inúmeras outras peças onde muitas vezes é cobrado um valor muito abaixo do que a companhia deveria receber. Aqui mesmo em Curitiba, todo final do mês tem o chamado “teatro para o povo”, com entrada franca para as pessoas. Isso no Teatro Guairá, um dos maiores e melhores teatros da América Latina. Escrever as peças é o que mais amo fazer, e para tanto, também tive que abdicar de uma vida onde saberia quanto vou ter no final do mês. Não me importo. Viver é desenhar sem borracha, diria o poeta. Se dos cento e cinqüenta alunos daquele colégio que assistiram minha peça hoje, um que seja conseguiu absorver algo, o desastre não terá sido total. Sempre tento me lembrar de uma peça minha que foi encenada ano passado. Quando a platéia estava saindo, ouvi uma senhora, de lágrimas nos olhos, comentar a amiga: “aconteceu à mesma coisa comigo”.Nunca mais a vi, mas sei que deixei uma pequena marca na sua vida. Sim, ainda vale a pena.

Fonte: Claudia Cozzella

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