Cigarro eletrônico coloca nova geração na mira do câncer de pulmão

 Avanço dos dispositivos entre os adolescentes contrasta com a redução do cigarro convencional e amplia a preocupação dos oncologistas com doenças respiratórias, cardiovasculares e a dependência de nicotina


Débora Curi é oncologista clínica do Grupo SOnHe


Campinas/SP: Uma geração que deveria estar cada vez mais distante do cigarro está entrando em contato com a nicotina por uma nova porta. Os cigarros eletrônicos ganharam espaço entre adolescentes e adultos jovens e transformaram o perfil do tabagismo no país. O que parece, muitas vezes, apenas uma alternativa moderna ao cigarro convencional pode representar o início de uma dependência e de uma exposição precoce a substâncias capazes de provocar danos em diferentes órgãos. O alerta ganha força justamente quando o consumo do cigarro convencional apresenta sinais de redução entre os mais jovens. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do IBGE, mostra que 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos já haviam experimentado cigarro, contra 22,6% em 2019. No mesmo período, porém, a experimentação de cigarro eletrônico saltou de 16,8% para 29,6%. Entre as meninas, o índice chegou a 31,7%, enquanto entre os meninos ficou em 27,4%. Os números não representam apenas uma mudança no produto consumido, mas na idade em que uma nova geração passa a ser exposta à nicotina. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019 já apontava que os dispositivos eletrônicos estavam concentrados entre os mais jovens: enquanto o uso atual era de 0,64% entre a população de 15 anos ou mais, chegava a 2,38% entre pessoas de 15 a 24 anos. Cerca de 70% dos usuários atuais estavam nessa faixa etária.

Para o oncologista clínico e sócio do Grupo SOnHe Vinícius Conceição, integrante do núcleo de excelência em câncer de pulmão da instituição, o avanço dos dispositivos entre os jovens exige que a discussão sobre tabagismo seja ampliada. “O que preocupa é que estamos antecipando a exposição. Uma pessoa que começa a consumir nicotina na adolescência pode desenvolver dependência muito cedo e permanecer exposta por muitos anos”, afirma. O problema também não se limita ao risco futuro de câncer. O uso de dispositivos eletrônicos para fumar está associado a uma série de danos respiratórios e cardiovasculares. Entre eles estão bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), enfisema, asma, doença cardiovascular e EVALI, uma lesão pulmonar grave associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico ou vaping. O INCA também cita bronquiolite obliterante, conhecida popularmente como “pulmão de pipoca”, entre os danos relacionados aos dispositivos. A EVALI ganhou atenção justamente por representar uma doença pulmonar relacionada especificamente ao uso de cigarros eletrônicos. A condição pode provocar falta de ar, dor no peito, febre e outros sintomas, podendo evoluir para quadros graves. Já a bronquiolite obliterante é uma doença grave e irreversível associada à exposição ao diacetil, substância que pode estar presente em líquidos utilizados nos dispositivos.

A preocupação dos oncologistas aumenta porque a dependência pode começar antes mesmo que o jovem tenha experimentado um cigarro convencional. Os dispositivos são apresentados em diferentes formatos, com sabores e aromas, e podem conter nicotina em concentrações elevadas. Segundo a Anvisa, os sais de nicotina presentes em alguns produtos podem aumentar a facilidade de desenvolvimento da dependência. Para a oncologista clínica Débora Curi, integrante do núcleo de excelência em câncer de pulmão do Grupo SOnHe ao lado de Vinícius Conceição, Amanda Negrini, Rafael Luís do Carmo e Nayara Nardini, a falsa percepção de segurança é um dos pontos que precisam ser enfrentados. “O cigarro eletrônico não deve ser visto como uma alternativa segura. Ele mantém a dependência de nicotina e expõe o organismo a substâncias tóxicas. Quando esse contato começa tão cedo, estamos diante de um problema de prevenção que precisa ser discutido antes que a doença apareça”, afirma.

A relação entre tabagismo e câncer já é conhecida. O cigarro convencional está associado ao desenvolvimento de mais de 15 tipos de câncer e permanece como o principal fator de risco para o câncer de pulmão. No Brasil, o INCA estima que cerca de 85% dos casos da doença estejam associados ao consumo de derivados do tabaco. A preocupação agora é evitar que a redução do cigarro convencional seja acompanhada pela formação de uma nova geração dependente de nicotina por meio dos dispositivos eletrônicos. O cenário é especialmente preocupante porque os danos não dependem de décadas de uso para se manifestarem. Lesões pulmonares, alterações cardiovasculares, doenças respiratórias, dependência e outros efeitos adversos já fazem parte do conjunto de riscos reconhecidos pelas autoridades sanitárias. Ao mesmo tempo, por serem produtos relativamente recentes, ainda existem lacunas sobre seus efeitos de longo prazo. A Anvisa destaca que nem todos os riscos dos dispositivos são conhecidos. No Brasil, a comercialização, fabricação, importação, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar são proibidos pela Anvisa. A regulamentação foi reforçada pela RDC 855/2024. Ainda assim, a presença desses produtos entre adolescentes mostra que a proibição comercial não encerra o problema e que informação e prevenção precisam acompanhar a fiscalização.

O Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, coloca novamente o tabagismo no centro da discussão. Mas o desafio atual exige olhar além do cigarro tradicional. Se o país conseguiu reduzir o contato dos adolescentes com o produto convencional, precisa agora impedir que a nicotina volte a conquistar essa geração por meio de dispositivos que mudam de formato, sabor e aparência, mas continuam associados à dependência e a danos à saúde. “Precisamos mudar a percepção de que o problema do cigarro eletrônico está apenas no futuro. Alguns danos já são conhecidos e outros ainda estão sendo estudados. Para a oncologia, prevenção significa justamente evitar que o paciente chegue ao consultório depois que a doença se instalou”, reforça Débora.

 

Sobre o Grupo SOnHe

O Grupo SOnHe - Oncologia e Hematologia é formado por 20 oncologistas e hematologistas que fazem atendimento oncológico alinhado às recentes descobertas da ciência, com tratamento integral, humanizado e multidisciplinar em importantes centros de referência, como o Hospital Vera Cruz, Hospital Santa Tereza, Hospital PUC-Campinas e Vera Cruz Indaiatuba.  O SOnHe oferece excelência no cuidado oncológico e na produção de conhecimento de forma ética, científica e humanitária, por meio de uma equipe inovadora e sempre comprometida com o ser humano. Fazem parte do grupo os oncologistas André Deeke Sasse, David Pinheiro Cunha, Vinícius Correa da Conceição, Vivian Castro Antunes de Vasconcelos, Rafael Luís, Susana Ramalho, Leonardo Roberto da Silva, Higor Mantovani, Débora Curi, Amanda Negrini, Laís Feres, Nayara Nardini, Giselle Rocha, Nathalia Monnerat, Thaís Reina e pelos hematologistas Lorena Bedotti, Jamille Cunha, Lucas Weiss, Gessika Gutierrez e Guilherme Machado. Saiba mais: no portal www.sonhe.med.br e nas redes sociais.

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