“A Chama e a
Sombra” reúne documentos, fotografias e 18 histórias de perseguição e
resistência para contar sobre os bastidores dos Jogos Olímpicos de 1936
O nome do material contrapõe o símbolo da chama olímpica, que
representa o ideal de aproximação entre os povos, e a sombra, em referência à
perseguição e à violência que os Jogos de Berlim ajudaram a encobrir. Na foto,
Jesse Owens vence uma prova durante as Olimpíadas de Verão de 1936. Foto: Getty
Images / Olympics.
Curitiba (PR), 13/08/2026 —
O Museu do Holocausto de Curitiba lançou, na última quarta-feira (12), o
material educativo “A Chama e a Sombra: os 90 anos das Olimpíadas de Berlim”, resultado
de um trabalho de pesquisa que reúne documentos, peças de acervo, fotografias,
propostas pedagógicas e, sobretudo, trajetórias individuais que ficaram à
margem da narrativa oficial dos Jogos Olímpicos de 1936.
Com cerca de 50 páginas, o
material está dividido em capítulos, que mostram como o esporte era parte
importante da vida das comunidades judaicas na Europa entre as duas guerras
mundiais, como o nazismo se apropriou do esporte para consolidar o mito da superioridade
ariana, quais foram as repercussões das Olimpíadas de Berlim na imprensa
internacional — incluindo a brasileira —, e como se deram os movimentos de
boicote à competição. O conteúdo traz, ainda, propostas pedagógicas para
trabalhar o tema em sala de aula e apresenta peças do acervo do Museu
relacionadas aos Jogos de 1936.
“A Chama e a Sombra” está
disponível gratuitamente online por meio deste link.
As Olimpíadas de Berlim
Realizadas em pleno regime nazista, as Olimpíadas de
Berlim ficaram marcadas pelas cerimônias e pelos recordes esportivos exaltados
pela propaganda da época. Passados 90 anos, o material do Museu propõe um outro
olhar sobre o evento, voltado para quem, por trás dos holofotes, teve a vida
marcada pela discriminação, exclusão e violência do regime, mas também pela
resistência e pelo combate à perseguição nazista.
O coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba,
Carlos Reiss, destaca que o esporte e as Olimpíadas nunca estiveram dissociados
da política. Desde sua criação, os Jogos refletem tensões nacionais, disputas
de poder, exclusão, desigualdades sociais e raciais. Em 1936, esse
vínculo ficou ainda mais evidente.
“Naquele ano, os primeiros campos de concentração, como
Dachau e Sachsenhausen, já confinavam prisioneiros políticos. As Leis de
Nuremberg, que institucionalizavam o antissemitismo, já estavam em vigor.
Enquanto isso, mais de 300 estações de rádio transmitiam as competições em mais
de 25 idiomas, projetando a imagem cuidadosamente construída de uma Alemanha
moderna, organizada e pacífica”, afirma Reiss.
Para o coordenador de História do
Museu do Holocausto, Michel Ehrlich, o material busca justamente contrapor a
imagem das Olimpíadas construída pela propaganda nazista. “Ao longo da
história, o esporte e as grandes competições foram usados tanto para sustentar
regimes quanto para resistir a eles, e com o nazismo não foi diferente.
Queríamos trazer uma pluralidade de histórias que ilustrassem diferentes
trajetórias ligadas aos Jogos de 1936 e ao esporte em geral: atletas impedidos
de competir, que se posicionaram publicamente, que encontraram formas de
resistir ou que sabotaram os eventos.”
A Chama e a Sombra
Uma das passagens mais lembradas das Olimpíadas de Berlim
é a do atleta negro norte-americano Jesse Owens, um dos maiores nomes da
história do atletismo. Nascido em 1913, destacou-se ainda jovem nas provas de
velocidade e salto em distância, construindo uma carreira marcada por recordes
mundiais. Nos Jogos de 1936, conquistou quatro medalhas de ouro, feito que
desafiou diretamente a propaganda nazista de superioridade racial ariana e o
transformou em símbolo da luta contra o racismo.
Ao retornar aos Estados Unidos,
seguiu enfrentando discriminação racial. Sem contratos ou emprego, foi atração
de circo e correu contra motos, carros e cavalos para sustentar a família. Só
nos anos 1950 ganhou reconhecimento mais amplo. Morreu em 1980.
Jesse
Owens correndo os 200 metros rasos durante as Olimpíadas de Berlim. Foto:
Library of Congress, Estados Unidos.
O material também reúne histórias menos conhecidas, como a
de Johann Trollmann, o “Rukeli”, nascido em 1907 em uma família cigana
Sinti, na Alemanha. Ele se destacou no boxe alemão com uma movimentação ágil e
constante, descrita como uma dança no ringue, e por isso criticado pelo regime
por não ser “germânico” o suficiente. Barrado das Olimpíadas de Amsterdã, em
1928, seguiu lutando e acumulou vitórias, incluindo o título nacional dos
meio-pesados, de 1933, anulado pelos nazistas.
Forçado a uma nova luta sem poder
usar seu estilo, subiu ao ringue, em protesto, com o cabelo tingido de loiro e
o rosto coberto de farinha, permanecendo imóvel até ser nocauteado. Depois
desse episódio, a perseguição se intensificou. Em 1942, foi preso, torturado,
deportado e assassinado dois anos depois. Por décadas, sua história permaneceu encoberta. Seu título
de 1933 só foi reconhecido 70 anos depois, em 2003.
Outra trajetória, que tem relação
com o Brasil, é a de Béla Guttmann, nascido em Budapeste em 1899, um dos
maiores treinadores de futebol do século XX. Durante o Holocausto, escondeu-se
em um sótão e depois escapou de um campo de trabalhos forçados, sobrevivendo
até o fim da guerra. Foi jogador de futebol e competiu nas Olimpíadas de Paris,
em 1924, mas foi como técnico que se consagrou. Ele ajudou a popularizar o
esquema tático 4-2-4 e, em 1957, treinou o São Paulo, deixando um legado que
influenciou a seleção brasileira campeã do mundo em 1958. Guttmann também
conquistou duas Copas dos Campeões Europeus seguidas pelo Benfica, de Portugal,
em 1961 e 1962. Morreu em Viena, em 1981.
À esquerda, o boxeador Johann Trollmann em Hannover, na
Alemanha, em 1928. À direita, o técnico Béla Guttmann em Viena, em 1925. Fotos:
Hans Firzlaff / Manuel Trollmann / Domínio Público; Spiegel Online, Editora
Berenberg.
Propostas pedagógicas
Além de reconstituir cronologicamente o evento esportivo,
o material reflete sobre como o esporte pode ser instrumentalizado para
legitimar projetos autoritários, ocultar violações de direitos e difundir
narrativas de intolerância. Alinhado à missão do Museu do Holocausto de
promover educação em direitos humanos e combate à intolerância, o material é
indicado para uso em sala de aula, formação de professores e projetos de
memória histórica.
“Desenvolvemos os roteiros para diferentes etapas
de ensino, da Educação Infantil ao Ensino Médio, sempre pensando em opções
específicas para cada ano. Mas é importante ressaltar que as atividades podem e
devem ser adaptadas à realidade de cada escola”, afirma Denise Weishof,
coordenadora do Departamento Pedagógico da instituição.
Os outros materiais educativos desenvolvidos pelo Museu
podem ser acessados no site da instituição.
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