Vacinas contra o câncer já existem: conheça as imunizações contra HPV e hepatite B
As vacinas integram o Programa Nacional de Imunizações, afirma a oncologista especializada em câncer ginecológico Letícia Leis, da Oncologia D'Or de São Paulo.
Infecções prolongadas por certos vírus e bactérias respondem por cerca de 10% dos casos de câncer1. Esses agentes podem favorecer o desenvolvimento tumoral por diferentes mecanismos, incluindo inflamação crônica, enfraquecimento da resposta imunológica e interferência nos controles do crescimento celular. Os principais agentes associados ao câncer incluem o HPV (papilomavírus humano), o vírus Epstein-Barr, os vírus das hepatites B e C e a bactéria Helicobacter pylori1.
A boa notícia é que existem vacinas que previnem os cânceres provocados pelo HPV e pelo vírus da hepatite B. "Esses imunizantes são seguros, altamente eficazes e fazem parte do Calendário Nacional de Vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS)", explica a oncologista especializada em câncer ginecológico Letícia Leis, da Oncologia D'Or de São Paulo.
O câncer de colo do útero — ou câncer cervical — é a principal doença oncológica causada pelo HPV, que também está relacionado a tumores no canal anal, na vulva, na vagina, no pênis e na orofaringe, região que inclui principalmente a base da língua, as amígdalas e também a parte posterior da garganta2. Já o vírus da hepatite B está associado ao carcinoma hepatocelular, o tipo mais comum de câncer primário do fígado, isto é, aquele que se origina no próprio órgão.
HPV
Existem mais de 200 tipos de HPV, que podem ser classificados em grupos de baixo e alto risco. Embora raramente causem câncer, os tipos de baixo risco podem provocar verrugas nos órgãos genitais, no ânus, na boca e na garganta. Entre os 12 tipos classificados como de alto risco, o HPV 16 e o HPV 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero. ²
Praticamente todos os casos deste tipo de câncer estão relacionados ao HPV. Só em 2026, deverão ser diagnosticados 19.310 casos3, a maioria em pessoas dos 30 aos 50 anos. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, este é o terceiro câncer mais incidente entre as mulheres e o segundo mais frequente nas regiões Norte e Nordeste, cenário que reflete, entre outros fatores, desigualdades no acesso à vacinação, ao rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento de lesões pré-malignas.
A Organização Mundial da Saúde adotou uma estratégia para eliminar o câncer cervical como problema de saúde pública4. Até 2030, as metas são vacinar 90% das meninas de até 15 anos, rastrear 70% das mulheres dos 35 aos 45 anos com teste de alto desempenho e tratar 90% das pessoas com lesões precursoras ou câncer. A eliminação exige uma incidência inferior a quatro casos por 100 mil mulheres. A Austrália está entre os países mais avançados5; em 2024, 81,1% das meninas do País estavam vacinadas aos 15 anos. Em 2021, a incidência foi de 6,3 casos por 100 mil mulheres.
O Brasil introduziu a vacinação contra o HPV no Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014. Um estudo populacional brasileiro6, publicado em 2025 na revista britânica The Lancet Global Health, avaliou diagnósticos de câncer de colo de útero realizados entre 2019 e 2023 em mulheres de 20 a 24 anos, nascidas entre 1994 e 2003, num total de 60,6 milhões de mulheres-ano. A pesquisa mostrou que a vacinação contra o HPV foi responsável pela redução em 58% da incidência de câncer cervical. A imunização também diminuiu em 67% a incidência na neoplasia intraepitelial cervical grau 3 (NIC 3), alteração nas células do colo do útero que pode evoluir para câncer se não for tratada.
Hoje, o PNI oferece vacinação contra o HPV em dose única para meninas e meninos entre 9 e 14 anos7. Adolescentes de 15 a 19 anos sem histórico vacinal podem receber sua dose em estratégias de resgates. O SUS também disponibiliza três doses, até os 45 anos, para pessoas imunodeprimidas, incluindo aquelas que vivem com HIV, receberam transplante ou estão em tratamento oncológico, além de outros grupos prioritários. Na rede privada, a vacina nonavalente é licenciada dos 9 aos 45 anos8.
Durante anos, o rastreamento do câncer cervical baseou-se no exame citopatológico — conhecido como Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste de DNA-HPV oncogênico. Em 2025, as diretrizes passaram a recomendá-lo como método primário, com implementação progressiva9. A coleta é semelhante à do Papanicolau, mas o teste procura diretamente o material genético do vírus do HPV. Durante a transição, a citologia também continua sendo utilizada.
"É importante destacar que a coleta não substitui o exame ginecológico, que é realizado para verificar a existência de lesões no colo do útero, na vagina e na vulva. Em caso positivo, uma biópsia poderá ser realizada para ajudar a identificar a origem do problema", afirma a médica Letícia Leis.
O HPV também está relacionado a cânceres de pênis, vagina, vulva, canal anal e orofaringe. Em geral, esses tumores são mais frequentes após os 60 anos. O câncer de orofaringe associado ao HPV ocorre principalmente em homens, enquanto o câncer anal pode pessoas de ambos os sexos, especialmente as imunodeprimidas.10 Como não há rastreamento de rotina para esses tumores na população geral, sintomas persistentes devem ser investigados.
Hepatite B
A hepatite B é uma infecção causada pelo vírus da hepatite B (HBV), transmitido principalmente pelo contato com sangue e outros fluidos corporais contaminados. A transmissão pode ocorrer por meio de relações sexuais sem preservativo; compartilhamento de seringas, agulhas, lâminas de barbear, escovas de dente ou alicates de unha; e da realização de tatuagens ou piercings quando as normas de segurança não são respeitadas. O vírus também pode ser transmitido da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto.11
A infecção crônica pelo vírus da hepatite B pode provocar cirrose e aumentar o risco de carcinoma hepatocelular, inclusive em algumas pessoas que não desenvolveram cirrose. ¹¹,12 Trata-se do tipo mais comum de câncer primário do fígado e responde por entre 75 e 90% dos casos. ¹² A doença é mais frequente entre os homens e ocorre principalmente em pessoas mais velhas. Em registros populacionais, a maior proporção dos cânceres hepáticos é diagnosticada entre os 65 e os 74 anos, com idade mediana ao diagnóstico de 68 anos. ¹³
Para cada ano do triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 12.350 novos casos de câncer de fígado no Brasil, sendo 7.340 em homens e 5.010 em mulheres. ³
A vacinação contra a hepatite B está disponível no SUS para pessoas de todas as idades. ⁷ As crianças recebem uma dose ao nascer, preferencialmente nas primeiras 12 horas de vida, seguida de doses aos 2, 4 e 6 meses com a vacina pentavalente. A partir dos 7 anos, quem não tiver completado pelo menos três doses deve iniciar ou completar o esquema com a vacina contra a hepatite B, geralmente nos meses zero, um e seis, sem necessidade de reiniciar doses já recebidas. ⁷
O tratamento do carcinoma hepatocelular depende principalmente da extensão e das características do tumor, do funcionamento do fígado e do estado clínico da pessoa.¹² Entre as opções estão cirurgia, transplante hepático, ablação — que destrói o tumor por meio de calor ou outras técnicas —, tratamentos realizados diretamente nos vasos que irrigam o tumor, radioterapia e tratamentos sistêmicos.
Nos casos mais avançados, combinações de imunoterápicos entre si ou de imunoterapia com medicamentos que bloqueiam a formação de vasos sanguíneos, além de terapias-alvo em situações selecionadas, fazem parte das opções atualmente disponíveis. ¹²
Referências
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- Martins LFL, Chaves GV, Oliveira JFP, et al. Perfil epidemiológico da incidência de câncer no Brasil e regiões: estimativas para o triênio 2026–2028. Rev Bras Cancerol. 2026;72(2):e-025587.
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- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. GARDASIL® 9: nova indicação [Internet]. Brasília, DF: Anvisa; 2026 Feb 10 [updated 2026 Feb 13; cited 2026 Aug 10]. Available from: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/gardasil-r-9.
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