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Espetáculo mistura ópera e teatro para celebrar herança cultural africana e combater preconceito



Canto lírico, teatro, música erudita, canções populares, raízes africanas e gritos de resistência contra o racismo se encontram em um só palco no espetáculo “Ópera Presença Lírica Africana”, que ganha estreia em Curitiba. Numa curta temporada na Capela Santa Maria, de 11 a 14 de março, a nova montagem da Companhia Nossa Senhora do Teatro Contemporâneo reúne dois atores e três cantores. O elenco traz como convidado especial uma das maiores vozes do canto lírico mundial em atividade, o premiado barítono David Marcondes, do Teatro Municipal de São Paulo. A entrada é franca.

 

Com direção musical de Paulo Barato e direção cênica de Isidoro Diniz e Cesar de Almeida, o espetáculo narra a saga da cultura africana no Brasil e sua importância para a formação do país. Para isso, traz um repertório com músicas eruditas e populares – de Chiquinha Gonzaga e Caetano Veloso até Villa-Lobos e Hekel Tavares - mesclado ainda com encenações teatrais contemporâneas, inspiradas nos contextos históricos da colonização e na musicalidade do povo brasileiro.

 

A soprano Milena Tupy e o barítono Paulo Barato completam o trio de cantores com David Marcondes, que é conhecido em Curitiba pelo grande sucesso da ópera “Anjo Negro”, apresentada em 2023 no Guairão, e já venceu diversos concursos internacionais na Europa. Eles cantam acompanhados pelo piano de Davi Sartori. A parte teatral reúne os atores Carlos Roberto Barbosa e Marcyo Luz.

 

O projeto foi aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Paraná, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura e Governo Federal.

 

Combate ao racismo

 

“Infelizmente, séculos depois, ainda é muito necessário combater o racismo e valorizar a presença cultural negra na construção da identidade brasileira. Os efeitos perversos dos quase 400 anos de escravidão continuam presentes, e um deles é justamente subvalorizar toda a grandiosidade da cultura que veio da África junto com os escravizados”, ressalta o diretor Isidoro Diniz, cuja carreira tem como uma de suas marcas a afirmação do protagonismo negro nas artes. “Nesta montagem, cuja linha mestra é a música, misturamos o erudito com o popular para reforçar a dimensão fundamental da negritude na verdadeira alma brasileira, com seu caráter de miscigenação cultural”.

 

A estrutura do espetáculo traz blocos musicais intercalados pelas cenas teatrais. O repertório selecionado por Paulo Barato parte de obras clássicas para se misturar com canções populares e folclóricas, num sincretismo que sintetiza a própria essência brasileira, para terminar, de forma apoteótica, em Carnaval, com um samba-enredo, “Sankofa” (Sílvio Costa (Turco). Esta composição foi vencedora do Carnaval de Curitiba de 2025, com a escola Mocidade Azul. Tem inspiração no símbolo africano ancestral que traz uma ave voltando a cabeça para trás, fazendo alusão à importância de conhecer o passado para entender o presente.

 

Miscigenação cultural

 

“O repertório faz um tour pela formação musical brasileira, com canções eruditas que retratam a tragédia da escravidão e também o lado alegre e resistente dos negros, presentes em sua religiosidade e musicalidade, passando pelo popular e a mistura de ritmos europeus e africanos para a criação de novos estilos”, explica Paulo Barato. “Samba, maracatu, bossa novas, lundu e maxixe são alguns dos filhos desta mesma mãe que é a contribuição da cultura negra ao país”.

 

A conversa entre teatro e música é costurada pelos atores, caracterizados com uma estética afrofuturista, como revela o codiretor cênico Cesar Almeida. “Eles fazem comentários sobre a invasão portuguesa no Brasil, colonização e escravidão, demonstrando a fundamental presença africana e negra na musicalidade e cultura do nosso povo, um legado ainda menosprezado”, completa Almeida.

 

Repertório musical

 

 

O repertório musical ganha vida em três blocos. O primeiro reverencia os indígenas, habitantes originários da terra invadida: “Um Índio” (Caetano Veloso), “Maru Upi” (canção tradicional Guarani) e “Nozani Ná” (harmonizada por Heitor Villa-Lobos a partir de registros dos índios Parecis feitos por Roquete Pinto no Mato Grosso). O segundo, traz: “Estrela é Lua Nova” (Heitor Villa-Lobos), “Estrela do Mar” (Marlos Nobre), “Cantilena” (Heitor Villa-Lobos) e “Xangô”, de Babi de Oliveira.

 

A terceira parte musical vem como “Rei Congo” (Osvaldo França e Liz Monteiro), “Funeral D'um Rei Nagô” (Hekel Tavares), “Lua Branca” (Chiquinha Gonzaga) e “Invocação” (Hekel Tavares). A quarta e última é composta por: “Boi Bumbá” (Waldemar Henrique), “Eu Avistei” (Aurinha do Côco), “Aquarela do Brasil” (Ari Barroso) e “Sankofa”(Sílvio Costa (Turco), Samba “Enredo da Escola de Samba Mocidade Azul de 2025”.

 

Contra o preconceito

 

Para David Marcondes, afrodescendente que enfrentou preconceito e conseguiu conquistar o topo da carreira na ópera, uma das expressões culturais mais elitizadas, o espetáculo é um grande marco em sua carreira e no meio lírico brasileiro. “Estou extremamente honrado em participar de um projeto com um tema tão grandioso e importante, que é valorizar a presença cultural negra no país e o sincretismo entre erudito e popular. Será a primeira vez que canto um repertório inteiro com este tema – penso que é inédito na ópera”, conta David. “Os 350 anos de escravidão e seu legado foram eficazes em varrer para o esquecimento muita coisa da cultura negra. Até mesmo eu, que sou negro, aprendi muito com esta montagem sobre temas como a mitologia e as religiões ancestrais da África”.

 

 

“Ópera Presença Lírica Africana”, com a Cia Nossa Senhora do Teatro Contemporâneo.

 

Data: 11 a 14 de março de 2026

Local: Capela Santa Maria - Rua Conselheiro Laurindo, 273 – Centro - Curitiba

Horários: De 11 a 13 de março (quarta a sexta-feira), às 20h. Dia 14 de março (sábado), duas sessões, às 11h e às 18h30.

Entrada: gratuita

Todas as sessões contarão com intérprete de libras

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