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Curitiba recebe exposição com 36 camisas de futebol que enfrentam o ódio dentro e fora do campo

 

Museu do Holocausto de Curitiba articula clubes brasileiros e internacionais em exposição inédita que mostra como o futebol pode ser um campo de transformação social, resistência e diversidade

 

Cartaz da exposição inédita “Camisas Contra o Ódio”, que abre no dia 13 de abril em Curitiba. A mostra fica em cartaz até 30 de abril e, na sequência, irá para São Paulo. Imagem: Museu do Holocausto de Curitiba / Divulgação

 

Na próxima segunda-feira (13), o Museu do Holocausto de Curitiba inaugura a exposição “Camisas Contra o Ódio”, mostra inédita que reúne 36 camisas de seleções e clubes de futebol de mais de seis países que, nos últimos anos, vestiram mensagens contra o antissemitismo, o racismo, as violências de gênero, a intolerância religiosa, o terrorismo e as guerras.

 

Dividida em seis módulos temáticos, a mostra reúne peças de clubes como Athletico, Coritiba, Corinthians, Flamengo, Vasco, Santos, Fluminense, Atlético Mineiro e as seleções masculina e feminina do Brasil, ao lado de times internacionais como Borussia Dortmund, da Alemanha, Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, Darfur United, seleção simbólica formada por refugiados da região oeste do Sudão, além de clubes israelenses.

 

Usados por jogadores como Vinícius Júnior, Hulk e Germán Cano, e pela jogadora Geyse Ferreira, os uniformes estampam desde mensagens em memória às vítimas do Holocausto e campanhas contra o antissemitismo até mensagens antirracistas, revelando como o esporte pode ser palco de mobilização social. A exposição tem caráter itinerante e acessível, com o objetivo de alcançar torcedores, estudantes, educadores e o público em geral.

 

“Ao trazer dos gramados temas associados à defesa dos direitos humanos, unimos a força popular do futebol a uma reflexão crítica e urgente, combatendo a naturalização da violência e da exclusão. Essa articulação entre cultura esportiva e responsabilidade social torna a mostra um marco no uso da memória como ferramenta de combate aos ódios contemporâneos”, afirma Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba.

 

Reiss conta que a ideia da exposição surgiu de forma natural. A primeira peça a integrar o acervo foi uma camisa do Corinthians usada no jogo contra o Fortaleza, em novembro de 2019. O uniforme, que estampa uma estrela de David, faz parte da campanha pioneira “Uma estrela para não esquecer”, criada pela Tech & Soul em parceria com o Memorial do Holocausto de São Paulo.

 

A camiseta foi adquirida por Amnon Czerny Z”L, sobrevivente do Holocausto que vivia em Curitiba, e doada ao Museu durante a cerimônia do Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, em 27 de janeiro de 2020. Amnon faleceu em setembro daquele ano, aos 84 anos.

 

“Percebemos que os clubes começaram a incorporar, por conta própria, datas de memória do Holocausto em seus calendários, como o 27 de janeiro e o 9 de novembro, data que marca a Noite dos Cristais e atualmente o Dia Internacional de Combate ao Fascismo e ao Antissemitismo. Começamos a fazer contato e os clubes foram super receptivos. A coisa extrapolou: construímos o acervo e queríamos mostrar todo esse material, por isso a exposição.”

 

A mostra conta com o apoio do Memorial do Holocausto de São Paulo, do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, do Grupo de Estudos e Pesquisas Aplicadas ao Futebol (GEPAF), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. A concepção de arte é do designer Michel Neuhaus.

 

Discriminação em campo

 

Embora seja um espaço de celebração e pertencimento, o futebol ainda reflete as estruturas de preconceito da sociedade. Nos últimos anos, os casos de discriminação no esporte têm crescido, seja pelo aumento real dos incidentes ou pela maior consciência da população em denunciá-los.

 

De acordo com o último Relatório da Discriminação Racial no Futebol, divulgado em 2024, foram registrados 250 incidentes discriminatórios, sendo 222 no Brasil e 28 envolvendo atletas brasileiros no exterior. O racismo predominou, representando 75% das denúncias (184 casos), seguido da LGBTfobia (16%), xenofobia (6%) e machismo (4%).

 

O cenário é ainda mais preocupante quando analisado ao longo do tempo. Desde 2016, os casos de racismo crescem ano a ano e, em comparação com 2014, primeiro ano do monitoramento realizado pelo Observatório, os incidentes aumentaram em 444%, passando de 25 para 136 registros. O relatório é desenvolvido em parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Grupo de Estudos sobre Esporte e Discriminação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

Em Curitiba, em janeiro de 2025, o zagueiro Léo, do Athletico, foi vítima de racismo por parte de um torcedor adversário durante o jogo contra o Coritiba, pelo Campeonato Paranaense. O caso foi registrado na Delegacia Móvel de Atendimento a Futebol e Eventos (Demafe) e um torcedor de 18 anos foi identificado. Ele deve responder por injúria racial, crime equiparado ao racismo, com pena de 2 a 5 anos de reclusão, além de multa e proibição de frequentar estádios.

 

A resposta dos clubes veio em campo. Três dias depois, o Athletico entrou em jogo com uma camisa estampando “Não ao racismo”. Logo após, o Coritiba vestiu um uniforme com a frase “Racistas não são bem-vindos no Couto”. As duas camisas foram doadas ao Museu e integram a exposição.

 

Camisa produzida pelo Athletico após o caso de racismo contra o jogador Léo e usada no jogo contra o Cianorte, em janeiro de 2025. Foto: José Tramontin / Athletico

 

“O combate ao racismo é um compromisso permanente do clube”, afirma Rubens Neves, diretor executivo da Fundação Athletico Paranaense (Funcap). “Atuamos de forma contínua na promoção de uma sociedade antirracista, com iniciativas ao longo de todo o ano, incluindo treinamento de letramento racial para os funcionários, comunicados aos torcedores em dias de jogos e a exposição de uma faixa permanente sobre o tema na Arena da Baixada.”

 

Camisa produzida pelo Coritiba após o caso de racismo contra o jogador Léo e usada no jogo contra o Andraus, em janeiro de 2025. Foto: Rafael Ianoski / Coritiba

 

“Cada caso de discriminação, que infelizmente ainda acontecem, reforça que o futebol ainda carrega desigualdades estruturais da sociedade”, destaca o CEO do Coritiba, Lucas de Paula. “Não podemos normalizar isso. O Coritiba nunca irá normalizar isso. É nossa responsabilidade usar o esporte como ferramenta de inclusão e combater toda forma discriminação com firmeza e compromisso contínuo. E temos feito isso”, completa.

 


 

Serviço

 

Exposição: Camisas Contra o Ódio

 

Visitação: 13 a 30 de abril de 2025

 

Local: Museu do Holocausto de Curitiba - Rua Cel. Agostinho Macedo, 248 - Bom Retiro, Curitiba - PR, 80520-100

 

Entrada: Gratuita, mediante agendamento pelo site do Museu do Holocausto de Curitiba

 

Próxima parada: São Paulo

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