Jaime Leibovitch..um mix de simpatia e inteligencia.


Jaime,me fale um pouco de voce...sempre trabalhou com a arte? Não, nem sempre trabalhei com arte. Formei-me em Psicologia e durante quase 30 anos trabalhei como psicoterapeuta, em consultório particular, além de empresas, onde fazia Treinamento de Pessoal. Como começou sua carreira? Em se tratando da "carreira", não costumo fazer distinção entre o amador e o profissional. Até porque a experiência amadorística, ao menos no meu caso, sempre foi muito mais rica e criativa do que a profissional. Neste último caso, às vezes penso que não fiz mais do que "prestar serviços" e sonhar o sonho dos outros, como se diz. Partindo, pois, deste ponto de vista, comecei a minha carreira aos 15 anos, quando entrei no CPC da UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes), na década de 60. Ali tive o meu primeiro e imorredouro contato com o teatro e convivi com pessoas muito especiais e de quem, passados 45 anos, sinto muitas saudades, como Waly Salomão, Tom Zé e Capinam. Logo depois vim para o Rio e entrei no antigo Conservatório Nacional de Teatro. Foi assim que tudo começou. Eu assisti a peça "Diálogo dos penis" mas no elenco estava o Marcos Wainberg e o Roberto Frota...como é isso? voces se alternam devido as agendas? É assim. Quando um ou outro não pode estar presente, e se não tenho outro compromisso, assumo o papel do Lula, personagem do Marcos Wainberg. E se o Roberto Frota não pode fazer, o Marcos o substitui, fazendo o Beto. É bem difícil para ele, que, além de precisar se concentrar num personagem que não é, originalmente, o seu, ainda tem que aturar assistir a um outro cara fazendo o Lula. Quanto a mim, fazer este espetáculo me dá um enorme prazer. Ambos são excelentes atores e colegas muito generosos, em cena e fora dela. Jaime, a gente que vive de teatro sabe as dificuldades do nosso dia...o quanto é dificil correr atrás de patrocinio,divulgação e todo o resto...a midia por outro lado te dá um reconhecimento que o teatro não nos trás,infelizmente..como voce ve isso? Vejo como uma realidade de mercado, da qual não dá muito pra fugir. E falo como alguém que sempre fez pequenas participações em televisão. Ninguém que me veja na rua sabe dizer meu nome e, no máximo, quando me reconhecem, apontam para o "pedófilo da novela", por conta de um papel, pequeno mas polêmico, que fiz em América. No entanto, quando se trata de divulgar qualquer trabalho de teatro, no rádio, por exemplo, não dá para não lembrar ao público que "o ator que fez o Bill estará lá". É desgastante, a gente se sente meio que vendendo gato por lebre, mas esta relação, que chamo de perversa, é uma via de mão dupla. O público gosta de comprar ingressos e entrar no teatro para, voyeurísticamente, assistir ao cara da novela interpretando Othelo. Cabe a nós fazê-lo sair do teatro tendo visto Othelo, eventualmente interpretado pelo cara da novela. Eu pergunto porque acho estranahamente triste a gente fazer 50 peças de teatro e pouquissimas pessoas te reconhecerem..ai voce faz um comercial que seja e pronto.. É triste, sim, muito triste. Qual foi seu ultimo trabalho na telinha ou atual? Meu último trabalho em teatro foi com a peça Corações Encaixotados, de Bosco Brasil, com a qual viajei de agosto a novembro de 2007. Em televisão, não me lembro mais, há de ter sido uma pequena e ridícula cena como médico, juíz ou advogado. E aguardo, com muita ansiedade, o lançamento do filme Orquestra dos Meninos, de Paulo Thiago, onde interpreto um maestro. E, com mais ansiedade ainda, o chamado para viajar e me divertir muito com o Diálogo dos Pênis. Como foi fazer um pedófilo na novela América,da Rede Globo? voce sofreu alguma descriminação ou o público já separa bem o pessoal do profissional? Foi uma experiência muito interessante, mesmo. Descrevê-la daria uma entrevista bem maior que esta. Como transito, bàsicamente, pela zona sul do Rio de Janeiro, onde as pessoas, de certo modo, já estão acostumadas a topar com atores "da Globo", nunca tive problemas. Pelo contrário, os adultos (os pais, quero dizer) compreenderam muito bem a mensagem que se queria passar. Afinal, o alerta era para eles. Quanto às crianças - e isto foi surpreendente! - pela delicadeza e cuidado com que o tema foi tratado, não tiveram motivo nenhum para fugir do ator que fazia o Bill, quando o encontravam na rua. Pelo contrário, estavam sempre de papel e caneta na mão à cata de autógrafos (isto foi antes do surgimento destas infernais maquininhas fotográficas acopladas a celulares, graças a Deus)). Quais são seus projetos para 2008? Para 2008 existe uma proposta, muito embrionária, de fazer uma peça cujos nome e texto ainda nem conheço. O convite é do mesmo diretor de Corações Encaixotados. Se, de fato, acontecer, deveremos começar a ensaiar depois do carnaval. Quero, também, investir com mais cuidado e carinho num pequeno trabalho que faço desde o ano 2000, com muita aceitação por parte do público: o espetáculo Um Só Vinicius, que trata, evidentemente, da música e da poesia do nosso querido Vinicius de Moraes. E quanto ao Diálogo dos Pênis, estou sempre a postos. Marcos Wainberg faz um dos personagens principais do meu espetáculo Parem o mundo que eu quero descer sem nem estar presente...espero um dia te-lo também no meu elenco...será um prazer imenso dividir um trabalho com voce. O prazer será todo meu, Cláudia. Só não incluí esta possibilidade nos projetos para 2008 por uma espécie de... pudor, digamos assim. Volto a frizar,Jaime, que a honra é toda minha e da CIA Tok de Arte. Até breve. Sucesso grande pra ti.


Claudia Cozzella

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