Quatro em cada dez casos de câncer poderiam ser evitados
Estudo global publicado em 2026 analisou 18,7 milhões de diagnósticos em 185 países; oncologista d explica como mudança de hábitos e vacinação podem contribuir para a prevenção da doença
Quase quatro em cada dez casos de câncer no mundo estão relacionados a fatores de risco modificáveis, segundo um estudo publicado em 2026 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). A análise, considerada a mais abrangente já realizada sobre o tema, avaliou 18,7 milhões de diagnósticos registrados em 2022, em 185 países, e identificou que 37,8% deles, aproximadamente 7,1 milhões, estavam associados a causas potencialmente evitáveis.
O estudo examinou 30 fatores de risco modificáveis. Tabagismo, infecções e consumo de bebidas alcoólicas foram os três principais responsáveis, juntos, por 28,5% da carga global da doença. A lista também inclui excesso de peso, sedentarismo, alimentação inadequada, exposição à radiação ultravioleta, poluição do ar e contato frequente ou prolongado com agentes cancerígenos no ambiente de trabalho, como amianto, benzeno, sílica cristalina, agrotóxicos, determinados metais e fumaça de motores a diesel.
Para Lucas Altoé Brandão, oncologista do Centro de Oncologia do Paraná (COP), os resultados reforçam que a prevenção precisa ocupar um espaço cada vez maior nas estratégias de enfrentamento ao câncer. “Nem todos os casos podem ser evitados, porque a doença também está relacionada ao envelhecimento, à genética e a fatores que ainda não são completamente conhecidos. No entanto, uma parcela expressiva dos diagnósticos está associada a exposições e comportamentos sobre os quais é possível atuar”, explica.
O alerta se torna ainda mais relevante diante do crescimento previsto no número de diagnósticos. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que o Brasil registre 781 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma, a projeção é de aproximadamente 518 mil ocorrências anuais.
Tabagismo permanece como principal fator evitável
De acordo com a análise, o tabagismo permanece como a principal causa evitável de câncer no mundo, associado a 15,1% dos novos diagnósticos. Além do tumor de pulmão, o hábito está relacionado ao desenvolvimento de câncer na boca, laringe, faringe, esôfago, estômago, pâncreas, fígado, rins, bexiga, colo do útero e em outros órgãos.
O consumo de álcool também merece atenção. A substância é classificada como cancerígena e está associada a pelo menos sete tipos de câncer, entre eles os de mama, fígado, intestino e esôfago. “Ainda existe a percepção de que beber pouco não representa risco, mas não há uma quantidade de álcool considerada totalmente segura em relação ao câncer. Quanto maior e mais frequente o consumo, maior tende a ser a exposição”, afirma Dr. Lucas.
Manter o peso corporal adequado, praticar atividades físicas regularmente e priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados também são medidas importantes. O excesso de gordura corporal pode provocar alterações hormonais, resistência à insulina e um estado de inflamação crônica, criando condições favoráveis ao desenvolvimento de diferentes tumores.
Vacinas também ajudam a prevenir o câncer
O levantamento incluiu nove infecções capazes de provocar câncer. Entre elas estão o papilomavírus humano (HPV), relacionado principalmente ao câncer do colo do útero, mas também a tumores de ânus, pênis, vagina, vulva e orofaringe; e os vírus das hepatites B e C, associados ao câncer de fígado.
A vacinação contra o HPV e a hepatite B representa uma importante ferramenta de prevenção. A realização de exames e o tratamento adequado de infecções como as hepatites e a causada pela Helicobacter pylori, bactéria associada ao câncer de estômago, também podem reduzir os riscos. “Quando falamos em prevenção do câncer, não estamos tratando apenas de hábitos individuais. É preciso considerar o acesso à vacinação, à informação, a ambientes saudáveis e aos serviços de saúde. A prevenção depende tanto das escolhas possíveis para cada pessoa quanto de políticas públicas capazes de reduzir exposições e ampliar o cuidado”, ressalta o oncologista.
Entre as principais medidas que podem contribuir para diminuir o risco de desenvolver câncer estão:
- não fumar e evitar a exposição passiva à fumaça do cigarro;
- evitar ou reduzir o consumo de bebidas alcoólicas;
- manter o peso corporal saudável;
- praticar atividades físicas regularmente;
- adotar uma alimentação equilibrada, com maior presença de frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais;
- proteger a pele da exposição excessiva ao sol;
- manter as vacinas contra HPV e hepatite B atualizadas;
- reduzir a exposição ocupacional a agentes cancerígenos, utilizando corretamente os equipamentos de proteção e seguindo as normas de segurança aplicáveis a cada atividade;
- realizar os exames de rastreamento indicados conforme idade, sexo e histórico pessoal e familiar.
O médico reforça que prevenção e diagnóstico precoce são conceitos complementares. Enquanto a prevenção busca impedir o surgimento da doença, o rastreamento procura identificar determinados tumores antes do aparecimento de sintomas. “Adotar hábitos saudáveis reduz o risco, mas não o elimina. Por isso, as consultas de rotina e os exames recomendados para cada perfil continuam fundamentais. Quando o câncer é descoberto em estágios iniciais, as possibilidades de tratamento e cura são, em geral, maiores”, finaliza.
