A volta da cultura da magreza e das restrições alimentares: por que ainda acreditamos que emagrecer é sinônimo de sucesso?
Com o retorno de padrões estéticos que valorizam corpos cada vez mais magros e a pressão impulsionada por celebridades, redes sociais e das conhecidas canetas emagrecedoras, a Dra. Sophie Deram nutricionista e pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar explica por que a busca pelo corpo ideal continua alimentando uma relação de culpa e controle com a comida
A recente repercussão envolvendo Ariana Grande e os comentários públicos sobre sua aparência reacendeu uma discussão que vai muito além de uma celebridade: por que a sociedade continua associando determinados corpos a sucesso, disciplina e valor pessoal? O episódio também trouxe novamente ao debate a força de antigos padrões estéticos, como o chamado “heroin chic”, que marcou os anos 1990 e voltou a encontrar espaço em uma nova realidade: a das redes sociais, dos algoritmos e da exposição constante a imagens cuidadosamente construídas, sem mencionar as canetas emagrecedoras, cada vez mais utilizadas (e nem sempre com a indicação correta).
Para a neurocientista do comportamento alimentar Dra. Sophie Deram, o retorno desses padrões revela algo mais profundo: a permanência de uma cultura que ensina as pessoas a enxergarem o próprio corpo como um problema a ser resolvido. “Durante muito tempo, aprendemos que emagrecer seria a solução para diversas questões da vida: autoestima, confiança, aceitação e até felicidade. A cultura da dieta, agora com a tecnologia das canetas emagrecedoras, vende a ideia de que existe uma versão melhor de nós mesmos esperando para aparecer quando atingirmos determinado peso”, explica.
Segundo a Dra. Sophie, essa lógica mantém muitas pessoas presas em um ciclo de tentativa e erro, no qual períodos de restrição são seguidos por exageros, culpa, frustração e novas tentativas de controle. “O problema não é uma pessoa querer cuidar da própria saúde. A questão é quando a relação com a alimentação deixa de ser guiada pelo bem-estar e respeito da fome e saciedade e passa a ser dominada pelo medo, pela culpa e pela sensação de nunca estar fazendo o suficiente”, afirma.
A especialista explica que o comportamento alimentar é influenciado por uma combinação de fatores biológicos, emocionais e sociais. Por isso, as restrições alimentares e regras rígidas sobre alimentação podem gerar uma relação mais conflituosa com a comida, fazer desenvolver um comer transtornado e em alguns casos até transtornos alimentares. “Nosso cérebro busca sobrevivência. Quando existe uma restrição intensa, ele entende que algo importante está faltando e aumenta a atenção voltada para aquele alimento ou para aquela necessidade. Não se trata de falta de força de vontade, mas de como o organismo humano funciona”, destaca. Com as canetas emagrecedoras, esses mecanismos parecem ser silenciados por um tempo, mas não de maneira sustentável.
Com as redes sociais, essa pressão ganhou uma nova dimensão. A comparação deixou de acontecer apenas com modelos e celebridades e passou a fazer parte da rotina de qualquer pessoa que acompanha conteúdos sobre corpo, alimentação, exercícios e estilo de vida. “Hoje, muitas pessoas são expostas diariamente a uma ideia de corpo, rotina e alimentação que parece perfeita, mas que não representa a complexidade da vida real. Isso cria uma sensação constante de inadequação”, afirma Dra. Sophie.
Autora do best-seller “O Peso das Dietas”, que ganhou uma nova edição, Dra. Sophie Deram defende uma mudança de olhar: sair da lógica da guerra contra o corpo e construir uma relação mais equilibrada com a alimentação. “O peso de uma pessoa não resume sua saúde, sua história ou seu valor. Precisamos abandonar a ideia de que cuidar de si significa estar sempre tentando diminuir alguma coisa”, ensina ela.
Para a pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar, a transformação mais importante não está em encontrar a dieta perfeita, mas em compreender como o corpo e o cérebro funcionam e recuperar uma relação mais tranquila com a comida. “Quando deixamos de viver em uma batalha permanente contra o próprio corpo e a comida, abrimos espaço para escolhas mais conscientes, sustentáveis e saudáveis”, finaliza.
BOX | 5 sinais de que a cultura da magreza pode estar influenciando sua relação com a comida
- Pensar constantemente em perder peso;
- Sentir culpa após comer determinados alimentos;
- Dividir alimentos entre “permitidos” e “proibidos” o tempo todo;
- Acreditar que a vida será melhor apenas depois de emagrecer;
- Iniciar repetidamente novas dietas e remédios, sem conseguir manter uma relação equilibrada com a alimentação.
Sobre Sophie Deram
Sophie Deram é nutricionista, autora best-seller, pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar e uma das principais vozes no Brasil sobre alimentação consciente e comportamento alimentar. Francesa naturalizada brasileira, é doutora pela Faculdade de Medicina da USP no departamento de endocrinologia. Ela coordena o projeto de genética do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC-FMUSP), com pesquisas em obesidade, obesidade infantil, transtornos alimentares, nutrigenômica e neurociência do comportamento alimentar.
Autora dos livros “O Peso das Dietas”, “Os 7 Pilares da Saúde Alimentar” e “Pare de engolir mitos” - publicados pela Editora Sextante , Sophie é referência nacional em nutrição comportamental, práticas nutricionais com ciência e consciência, ou seja, humanizadas e baseadas em ciência. Em seus atendimentos, palestras e conteúdos, defende o fim das restrições e o resgate do prazer de comer, influenciando milhares de pessoas a repensarem sua relação com a comida.


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